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Órbita ocular sob medida: Dr. Hochuli comenta o caso

Depois de ser notícia em alguns dos maiores veículos de comunicação do país, nós fizemos uma entrevista com o Dr. Eduardo Hochuli, cirurgião bucomaxilofacial, sobre todo o caso cirúrgico referente à reconstrução de órbita ocular sob medida, realizado no começo deste mês (set).

ba.io
28 de janeiro de 2021

Dr. Hochuli

Depois de ser notícia em alguns dos maiores veículos de comunicação do país, nós fizemos uma entrevista com o Dr. Eduardo Hochuli, cirurgião bucomaxilofacial, sobre todo o caso cirúrgico referente à reconstrução de órbita ocular sob medida que foi realizado no começo deste mês (set).

Satisfeitos com o resultado, o Dr. Hochuli ofereceu detalhes sobre o diagnóstico da paciente, explicou detalhes do planejamento cirúrgico e também falou acerca das novas tecnologias utilizadas neste caso inédito.

Confiram abaixo a entrevista:

1. Conte como a paciente chegou ao senhor e um pouco sobre o diagnóstico (causas, efeitos, solução encontrada)?

A paciente chegou para mim indicada por outro profissional: minha ex-aluna de mestrado. A paciente procurou esta profissional porque seu olho estava afundado, para dentro da cavidade orbital, caso de enoftalmia. Então, minha ex-aluna informou que ela precisaria de atendimento de um cirurgião para harmonização orofacial, me indicando.

Ela estava há 6 anos convivendo com este problema, devido à perda de gordura na região ocular, causando vários transtornos no seu dia-a-dia, como: diplopia (visão dupla), fortes dores de cabeça e baixa auto estima devido ao aspecto estético.

No primeiro momento a paciente ficou preocupada, receosa, pois não se tratava de uma cirurgia simples. Porém, entusiasmada com o resultado estético e funcional que o procedimento traria e sentindo-se mais confiante com toda a explicação sobre o procedimento, decidiu que sim ao final da consulta por realizar a correção.

2. Como foi a decisão de fazer um implante sob medida; quais fatores foram importantes para essa decisão?

Cirurgias semelhantes com esta, que não envolvem as quatro paredes orbitais, são geralmente feitas com enxerto de gordura ou osso do próprio paciente. O problema é que, com o passar do tempo, esses enxertos são reabsorvidos e parte do que você ganha, você perde, fazendo com que o resultado seja temporário.

Outro quesito do método tradicional acima falado é que ele é feito a base de percepção, sem muito planejamento ou cálculos prévios; na hora da cirurgia é que se define se vai por menos ou mais.

Porém, hoje, com o planejamento por meio de softwares é possível calcular a diferença de uma cavidade orbitária para a outra e produzir próteses que irão compensar esta perda de volume de forma mais certeira e previamente idealizada.

3. Fale um pouco sobre a peça (material utilizado, decisão sobre design, como foi o processo de criação?)

Como a paciente perdeu a gordura dentro da cavidade orbitária, assim como em casos parecidos ocorridos por traumas ou tumores, foi necessário reconstruir essas paredes de órbita perdidas. Você devolve estas paredes para que o globo ocular fique na posição e função adequada.

Neste caso, a paciente não perdeu as paredes, e sim a gordura, tornando o planejamento ainda mais difícil. Entenda-se que a gordura é o que ocupa 40% do espaço da órbita, e com esta perda houve um afundo do globo ocular, causando não só um transtorno estético, mas também funcional, tornando inviável a vida prática no dia-a-dia.

Nós escolhemos o titânio para evitar que houvesse qualquer risco de dano à peça. Como ela precisava ser muito fina na parte anterior (0,3mm) e mais robusta na parte posterior (3,4 mm). A escolha do titânio foi justamente para manter esse aumento de espessura sem o risco de haver trincas ou rachaduras nesta gradação.

Órbita ocular
4. Como foi a experiência em confeccionar a peça, qual o resultado final e como foi a experiência de trabalhar com a BioArchitects?

O fluxo de trabalho foi excelente. O que emperra o processo geralmente é a burocracia, tanto de convênio ou da Anvisa, especialmente para implantes sob medida, que necessitam de autorização especial por conta de personalização e singularidade.

Outro quesito foi a pandemia, que atrasou um pouco os trâmites mas sempre estivemos trabalhando incessantemente para realizar este projeto e devolver a qualidade de vida para a paciente o mais rápido possível.

5. Como foi a cirurgia? Tudo funcionou como o esperado? Poderia comentar um pouco sobre os passos realizados para o implante e o uso da realidade virtual durante a cirurgia?

O que manda na cirurgia é o planejamento. Perde-se tempo nesta etapa para que o procedimento em si seja o mais rápido possível, por um simples motivos: o tempo cirúrgico é bom para o hospital, cirurgião e paciente.

A cirurgia foi muito bem planejada. Quanto a soluções de problemas, a utilização do software foi necessária para calcular o quanto de avanço os implantes deveriam oferecer para que o globo ocular fosse reposicionado corretamente.

As peças foram confeccionadas de forma a anexar as próteses às quatros paredes. Não seria possível inserir as próteses apenas nas paredes debaixo ou de cima, pois o problema de posicionamento do globo persistiria, sendo necessário a fixação das quatro próteses em cada parede (superior, inferior, medial e lateral).

Além disso, foram feitos guias de perfuração, feitos com impressão 3D de acordo com a anatomia do paciente. Eu posicionei os guias no contorno da órbita da paciente e fiz as perfurações e depois só é necessário encaixar os implantes nestas perfurações.

Um grande diferencial foi utilizar a realidade aumentada, com o modelo 3D da cirurgia, também indicando exatamente onde deveriam ser feitas as incisões e posicionar a prótese. Então, a cirurgia em si, apesar de não ser simples, ela consegue ser bem rápida. Isso é fantástico!

O uso de todas estas soluções inovadoras para este tipo de caso, de reconstrução total destas paredes de órbita ocular, é um caso inédito e muito interessante para a comunidade médica. Já pesquisei vários artigos em inglês e não encontrei literatura igual, agora falta pesquisar em alemão (risos).

6. Quais os resultados esperados? Como esse implante irá influenciar no dia a dia da paciente?

Nós temos o resultado clínico imediato, que o mais importante é saber se a paciente estava enxergando. A cirurgia foi realizada das 07h30 às 09h45 da manhã e, já no final da tarde, a paciente foi consultada e estava enxergando normalmente, com os movimentos oculares livres.

Após a realização da cirurgia, a recuperação está super positiva, apesar dos edemas iniciais. Tenho me comunicado com a paciente e ela está melhorando a cada dia. Na tomografia tirada após a cirurgia, o reposicionamento do globo já está bem mais alinhado. Os resultados finais só poderão ser analisados realmente após 3 a 4 meses de recuperação, quando os inchaços passarem, daí teremos noção da melhora real.

Quanto aos efeitos específicos para a paciente, a primeira mudança positiva é da parte estética, com os olhos já alinhados. Outro efeito, é que a diplopia que ela tinha não existe mais: ela não está mais com visão duplicada no campo central, que é o que nós mais utilizamos. Este segundo fator é o que mais implica no dia a dia, pois dificultava seu trabalho e tarefas práticas. Estamos todos muito otimistas!

Pergunta extra:

Os implantes sob medida são o futuro? Qual seu panorama?

Sem dúvida alguma! Qualquer material cirúrgico personalizado facilita a cirurgia e diminui o tempo cirúrgico. É certo que o aumento de planejamento cirúrgico é bem maior quando falamos de implantes sob medida, porém, pensando sempre primeiramente no paciente - que sempre deve ser o ator principal da cirurgia -, a customização é uma evolução da cirurgia que não é mais possível trabalhar sem quando se busca os melhores resultados.

Hoje já trabalhamos com guias de corte, posicionamento, referência, guias de enxerto, realidade aumentada, biomodelos e próteses. Isso é fantástico! Mesmo com o tempo gasto no planejamento, o tempo cirúrgico é diminuído.

Além disso, atualmente, há empresas e profissionais prontos para atender estas demandas. Por mais que nós, cirurgiões, sejamos responsáveis por idealizar o implante e criá-lo junto com os designers e engenheiros, é muito bom contar com toda esta rede especializada que irá executar este projeto e oferecer cálculos mais preciso, focando sempre no melhor resultado possível para o paciente, que é a missão principal.

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